|
Transcription of a video by O. Ressler,
Nasci na Suíça e moro em Zurique. Minha tarefa principal é lecionar numa escola secundária e sempre fui politicamente ativo nas minhas horas livres. Sou um velho ativista de 1960; estava lá, nas demonstrações anti-Vietnã e tudo aquilo. Mais tarde também estive com os sem-teto e tomei parte nos movimentos antinucleares. Fiquei um pouco envolvido em tudo que aconteceu. E então, de alguma maneira, o movimento cessou; ainda havia um movimento sem-teto em Zurique, e também sei que muitas casas em Genebra foram ocupadas, mas a coisa foi calmamente dominada pela polícia. Depois não restou mais nada lá. Seguiu-se, então, um clima depressivo, como costuma acontecer depois de tais movimentos cíclicos. Naquele momento eu disse: vou escrever tudo o que ainda devemos considerar como importante. Fiz uma lista, como a de natal, uma longa lista de coisas que ainda considero que vale a pena -- colocar na meia. Aí eu li a lista e vi que parece bem chata agora.
Por exemplo, coisas como "queremos viver juntos,
uns com os outros, em solidariedade", "não
queremos crescimento econômico", ou "queremos
respeitar o meio ambiente". São todas aquelas
chatices sócio-ecológicas que podem ser
encontradas em plataformas de partidos. Eu queira espanar
isso um pouco, por isso pensei, OK, vou inventar uma
utopia. Porém não é, de maneira
nenhuma, uma utopia. Conheço todas as utopias.
Na maneira como são descritas, são de
certo modo atraentes. Mas fiquei também sumamente
fascinado pelo arredondamento, ao submergir em outros
mundos com sua própria terminologia. Pensei:
consigo vender essas coisas de maneira bem melhor, essas
noções desejadas, se eu as dissimular
como utopias. Devo enfatizar que não existe uma única
idéia nova nesse livro. Tudo se refere a algo
que já tinha encontrado. É possível
chegar ao bolo, à unidade por meio de várias
direções, à unidade básica
de como as pessoas podem conviver juntos com alguma
sensibilidade sem destruir o planeta, seus nervos e
seus produtos. Uma abordagem é a comunicação:
quando as pessoas não conseguem falar racionalmente
umas com as outras, elas se tornam dependentes de autoridades
em escalões mais altos, têm de ter supervisores
para realizar sua comunicação. Compreendemos,
por exemplo, a teoria da comunicação que
diz que ela pode funcionar informalmente com até
150 pessoas, o que significa que não são
necessárias quaisquer estruturas. Fica, então,
muito confortável e existem muito mais argumentos
que o necessário, pelo fato de a comunicação
ser tão fácil. Por isso cheguei a uma
unidade básica, uma reunião, que deve
ser relevantemente maior que 150. Digo que 500 não
seria mau, 400, 600, 700 ou 800. Aí existe outro
limiar que precisa ficar por volta de 1000, após
o que se torna necessário delegar, para organizar.
Tal administração exigira, então,
um comitê e um certo nível profissional.
Aqui chegamos ao domínio de uma burocracia estruturalmente
necessária. E eu não gosto disso; a coisa
cresce rapidamente, porque ninguém controla a
burocracia, para que ela realmente faça aquilo
que você quer. E esses órgãos de
controle são, novamente, susceptíveis
de corrupção e têm de ser monitorados;
fica bem complicado. Eu sempre começo com este bolo urbano ocidental.
Nunca dito regras de como outras pessoas devem se organizar.
Simplesmente pego a Suíça como exemplo,
mas dá no mesmo para o resto da Europa ocidental.
Como organizar a agricultura em conjunção
com essas estruturas urbanas? Minha sugestão,
e também a de muitas pessoas que vem estudando
ecologia e agronomia, é a seguinte: na Europa
ocidental, para suprir as necessidades de um bolo assim,
necessitaríamos de 90 hectares do tipo de terreno
que temos aqui. Numa cidade média como Zurique,
esses 90 hectares podem ser encontrados num raio de
cerca de 30 km em volta da cidade, aqui haveria espaço.
Isso continua disponível, se não construirmos
e pavimentarmos tudo em breve. E então seria
possível, num sentido puramente esquemático,
designar cada bolo para uma fazenda de 90 hectares.
Isso é um cálculo bem generoso, porque
na Suíça as fazendas medem, em média,
15 hectares, na Áustria talvez sejam um pouco
maiores. Embora se tratem de unidades relativamente
grandes, isso não significa que grandes áreas
tenham de ser convertidas em fazendas. Essas teriam,
intrinsecamente, estruturas bem diferenciadas, onde
seria possível produzir tudo, de batatas a leite.
Isso permitiria atingir uma boa eficácia ecológica,
porque um caminhão pequeno ' ou talvez mesmo
um vagão de trem ' teria de viajar apenas uma
vez por semana entre a área rural e a urbana.
Para a viagem de retorno, poderiam carregar fertilizantes.
Então seria possível desenvolver um sistema
em que as pessoas morando no bolo poderiam também
trabalhar na área rural. Seria muito mais eficaz
que o sistema de suprimento de supermercados de hoje,
onde se está lidando com uma série de
transportes intermediários, em centros de distribuição,
e então, novamente em supermercados, e aí
ainda temos de ir ao supermercado. No caso de bolos,
cada bolo seria um supermercado, com departamentos de
terras diversificadas, suficientemente grandes para
desenvolver fazendas economicamente. Não se pode
continuar com a agricultura de hoje porque ela só
funciona com grandes suprimentos de petróleo,
produtos químicos e outras coisas. São
necessárias fazendas biologicamente mistas, onde
se possa combinar plantios diversos na mesma área,
de modo a se fertilizarem entre si. Não estes
imensos campos monótonos; isso não funcionaria
mais. Mas uma agricultura mista, assim, exige muito
mais mão-de-obra que hoje ' o que é bastante
bom ' talvez três vezes mais. Isso, porém,
não é muito, porque na Suíça
a agricultura utiliza mais ou menos 3% da força
de trabalho, portanto então seriam cerca de 10%.
Porém, nesse meio tempo, todos os bancos teriam
sucumbido e haveria mais gente suficiente para entrar
no sistema. A forma mais simples de intercâmbio é
o presente. É também a mais perigosa,
especialmente para quem o recebe. Esta troca é
possível quando alguém é relativamente
independente. O bolo possui uma soberania básica;
na Suíça temos um ditado ' ser suficientemente
independente para ser generoso. Em termos marxistas,
não é necessário investigar se
você presenteou valores demais. Há uma
ampla variedade de presentes. E, uma vez que se assume
que o bolo existe em todo lugar, doar significa um tipo
de honra para esses bolos, o que significa que, em retorno,
eles também podem receber algo. Essa seria uma
importante forma de intercâmbio, que não
fica especificamente presa a qualquer commodity. Pode-se
dar de tudo; tempo, poemas ou o que se queira. Se tivéssemos agora atingido essas condições ecológicas, por exemplo, 20% do consumo de energia, então ainda seria possível ter alguns carros no ambiente. Num bolo, talvez ainda existiriam 20% de carros, que as pessoas poderiam alugar. Isso seria suficiente, já que se tem de dirigir apenas uma vez ou outra. Mas será dificilmente necessário dirigir, porque não haveria razão para as pessoas irem a qualquer lugar. Significa que o número de automóveis seria reduzido umas dez vezes, a indústria automotiva quase que acabaria, como também todos os bancos que a financiam. Ao mesmo tempo, a indústria petrolífera entraria em colapso e deixaria de existir. Por outro lado, a indústria de eletrodomésticos se encolheria proporcionalmente, porque, por exemplo, seria possível lavar toda a roupa em uma única lavadora do bolo, o que seria 8 vezes mais eficiente que uma máquina de lavar normal. Todo o entretenimento eletrônico que ainda existisse por aí poderia continuar, só que não seriam mais necessários tantas máquinas. Na realidade, a indústria high-tech se reduziria só em termos de consumo. Seria preciso 10 vezes menos de tudo. E então temos apenas o aspecto de onde e como produzir o restante com maior eficiência. A resposta aqui é completamente clara: subcontinentalizar. Por exemplo, caminhões seriam montados num local, digamos, no sul de Varsóvia, para todos os bolos ou cidades entre os Montes Urais e o Atlântico. E seriam produzidos apenas módulos. Módulos médios, grandes e pequenos, um motor e então em bolos ou cidades haveria montagem dos módulos para fazer o que fosse necessário. Isto já ocorre hoje no terceiro mundo. Todos os ônibus de transporte público são feitos lá. O chassis é construído lá e tudo o que se fornece é o motor e o câmbio. Já é uma tecnologia eficiente. Como funcionaria? Faria isso simplesmente com dinheiro: as pessoas pagam. Naturalmente, você poderia agora perguntar: como é possível obter dinheiro? Existe, é claro, uma única opção: ou você paga pelo produto ou tem uma quota. E preciso alguma quantidade de caminhões e então os trabalhadores, que produzem caminhões, são pagos por nós indiretamente, por meio de dinheiro ' mas, na verdade, não se precisa de muito. Pode-se obter dinheiro, caso seja necessário, se a pessoa optar por vender parte das commodities, parte da força de trabalho ou dos produtos agrícolas, em troca de dinheiro. Isto cria, automaticamente, um mercado subcontinental, se for tentado. Quando as pessoas moram perto, existe um controle social intrínseco que não exige nenhuma imposição organizada. Seria apenas tipo: que é que você está querendo de novo? A vigilância é simplesmente muito maior. Isso é lindo, no sentido em que previne um bocado de comportamento social danoso, e é possível reduzir a força policial. Eu diria que a polícia poderia ser reduzida a um décimo de seu tamanho atual. O problema, então, seria inverso: se eu me apresento como "ibu," como uma pessoa, quanto desse controle social consigo suportar ? Isso poderia ser também um problema. O negócio é a proporção da mesclagem. Quando não há controle social, então surgem as condições do gueto; caos e anarquia -- no pior sentido ' e é necessário um policial em cada andar. Isso não é bom. Mas é preciso, da mesma maneira, ter algum espaço para que seja possível às pessoas se defenderem desse controle interno. Um aspecto de espaço é o tamanho. Se houver 500 pessoas, então é fundamental que o anonimato seja assegurado. Aí é possível fazer as coisas, os bolos podem ter várias entradas e saídas, a fim de que ninguém veja você. Em bolos menores, tal controle se converteria num pesadelo, um bolo maior seria melhor. Os bolos podem fazer contratos de bolo global. Eu posso me mudar a qualquer hora, depois de aviso, e um bolo sim, outro não, tem capacidade livre para pessoas que simplesmente queiram se tornar hóspedes, mas talvez para ficar. Posso me mudar de qualquer lugar para qualquer lugar. Isso evitaria que as pessoas ficassem muito adstritas ao controle social, porque então teriam receio de que eu me mudasse. Quando se começa a falar em bolos, o perigo é vê-los como construções isolacionistas, um pouco como as grandes comunas dos anos 70. Mas eu gostaria de me afastar disso completamente. Para mim, pode-se dizer que os bolos são organizações eficientes de civis. Você entra com um contrato e sai da mesma forma. Talvez você traga sua riqueza consigo, mas também a leva quando sai. Não são comunas. Também, dentro, talvez haja famílias ou grupos em coletividade e pessoas sozinhas; todos têm sua própria esfera privativa. Poderiam também existir bolos onde as pessoas querem dormir em dormitórios imensos, não se poderia evitar isso ' também está OK. Mas também poderiam existir instituições monásticas. O que se precisa, naturalmente, é um contrato planetário de bolo e, para mim, 10% do espaço de moradia e alimentação, em cada bolo, seriam reservados a hóspedes para contrabalançar essa tendência isolacionista. Cada bolo tem que se abrir, de certo modo. Tradução: Itaucultural Institute, Sao Paulo |